Mais de 100 pessoas vivem desabrigadas às margens do Campus Darcy Ribeiro

Todos os dias, milhares de pessoas que se deslocam para a UnB passam rapidamente por acampamentos de 20 a 80 moradores de rua. A maioria das famílias está desempregada e sobrevive de doações.

Por Luísa Laval e Iara Santos

Acampamento em uma das vias de acesso ao campus Darcy Ribeiro. (Foto: Luísa Laval) #PraCegoVer: a imagem mostra duas barracas, com lençóis em cima delas, onde os moradores de rua vivem. Além disso, há um carrinho de compras e lixo espalhados no chão.

Em uma das principais entradas da universidade, cerca de 20 pessoas abrigam-se em barracos simples para tentar ganhar a vida à beira do asfalto. “Eu venho para aqui porque eu preciso”, afirma Rose, que passa a semana ali, sentada ao lado de uma placa com a inscrição “Doações aqui”. No chão, vê-se uma chupeta de criança, latas de tinta que servem como bancos, um carrinho de supermercado usado como brinquedo e muito pó. As crianças brincam descalças e disputam a atenção das repórteres, que conversam com os adultos.

Até dois anos atrás, Rose sempre morara na rua, inclusive atrás da garagem do Senado, quando ela e outros acampantes receberam uma moradia no Paranoá Parque, condomínio projetado para o Programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal. Entretanto, ela conta que, por não conseguirem emprego, a única solução é permanecer próximo ao campus para conseguir algum donativo “De vez em quando vem o pessoal da Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal) aqui e derruba os barracos, mas a gente volta mesmo assim”, declara a moradora.

Maria do Carmo, 70 anos, chegou a pouco menos de um mês no local, vindo em busca a um benefício para seu filho Jorge, que foi atropelado na via em frente ao acampamento. Jorge sobreviveu, mas teve uma grande deformação na cabeça que o impede de trabalhar. “Estou morando na rua só porque vim ajudar meu filho. Não preciso disso, tenho minha casinha na Bahia. Brasília é só sofrimento”, conta a idosa. Ao contrário do restante do acampamento, dona Maria não tem para onde ir aos finais de semana e permanece no local apenas com Jorge em sua barraca.

Ouça o recado de Maria do Carmo para as pessoas que passam em frente ao acampamento:

Maria do Carmo ao lado da barraca que mora com o filho, de 30 anos, que foi atropelado na rodovia à frente. (Foto: Luísa Laval). #PraCegoVer: Maria do Carmo está no primeiro plano da fotografia e, logo atrás dela, está a barraca onde vive.

Do outro lado do campus

A cinco minutos de distância, outro acampamento abriga cerca de 50 famílias de catadores, chegando a mais de 80 pessoas. Há muito lixo espalhado pelo chão, onde galinhas, cães e gatos passeiam, enquanto as crianças pegam brinquedos quebrados no chão e os põem na boca, muitas vezes já marcada por alguma doença dermatológica. Bárbara, 24 anos, queima um tronco de árvore para fazer carvão e colocar em seu fogão à lenha.

O marido de Bárbara, Marcos, 26 anos, já mora nesse mesmo local há dez anos e usa uma carroça para coletar papelão e cortá-lo. “Depois a gente liga para a empresa, e ela vem buscar”, afirma Marcos, “Tem vezes que a gente consegue uns 300 trocados”. O casal mora com os cinco filhos, entre 1 e 8 anos, em uma pequena barraca, que tem como proteção contra a chuva um pedaço de lona preta. A família recorre a um lago para tomar banho, menos Marcos, que alega: “Não gosto de banho, adoeço quando tomo.”

Construção de um barraco que desabara na última chuva. (Foto: Luísa Laval). #PraCegoVer: Marcos está de costas para a foto e em sua frente há um barraco composto por plástico e lençóis. No espaço da fotografia, há lixo disperso pelo chão e uma base de madeira, o que depois iria se transformar em uma barraca.

“Nós gostamos daqui, é melhor do que onde estávamos, em Planaltina”, conta Marcos. Segundo ele, a Agefis volta ao local a cada seis meses para expulsá-los de lá e derrubar o acampamento. Bárbara comenta: “Eles derrubam, mas a gente volta aqui”. O esposo completa: “Isso quando não é a chuva que derruba. Quando isso acontece, a gente corre para debaixo dos prédios das quadras.”

Na despedida, Bárbara deixa um recado a cada pessoa que passa pela via à frente do acampamento: “Quem quiser ajudar, pode trazer cesta, roupa, qualquer coisa a gente aceita”.

Cerca de arame utilizada como varal pelos moradores do acampamento. A água para lavar das roupas é retirada de um lago próximo. (Foto: Luísa Laval). #PraCegoVer: um varal improvisado com roupas estendidas na cerca de arame.

 

*Todos os nomes de moradores de rua citados nesta matéria são fictícios.

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