Editorial

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Brasil e a árdua missão de ser jovem

O caos político no qual estamos imersos reverbera em todos os âmbitos da sociedade, e com a universidade não poderia ser diferente.  Paralisações, greves, serviços suspensos, assembleias, manifestações e ocupações se tornaram rotina para a comunidade universitária, e o que mais angustia é o sentimento generalizado de impotência em relação não só à situação da nossa instituição, mas a toda conjuntura política brasileira.

A UnB quebrou. A notícia foi de que não conseguiríamos continuar com as nossas atividades a partir de agosto de 2018. A reitora e o Ministério da Educação (MEC) dividiram o assento do banco dos réus pela bancarrota financeira da obra-prima de Darcy Ribeiro. Os diversos grupos do movimento estudantil não pouparam nenhum dos dois possíveis culpados. O edifício da reitoria foi ocupado durante 19 dias, sob a condição de revogação das demissões de mais da metade dos terceirizados, responsáveis por serviços básicos como a limpeza e a segurança dos campi.

Já no MEC, foram as forças policiais que não pouparam os estudantes. A manifestação, que a princípio era pacífica, foi duramente reprimida pela cavalaria, que botou os poucos que protestavam para correr em menos de meia hora. Resultado de tudo: 533 terceirizados demitidos entre os dias 6 e 16 de maio e a previsão de 1,1 mil desligamentos de estagiários na instituição.

A sensação é que tudo está em marcha ré: violência policial, sucateamentos, desemprego, a onda conservadora e, inclusive, alguns pedindo a volta dos militares, os responsáveis pela década perdida e pela ruína econômica após vinte anos de desmandos e crimes no comando do Estado. Mas o que mais dói é algo que vai além do político e dos números desanimadores: a desesperança. Não é só o sentimento de que tudo está errado. É a falta de luz no fim do túnel e a possibilidade cada vez mais longínqua de reconciliação entre dois Brasis que parecem cada vez mais divergentes. Existe algo mais cruel do que arrancar a esperança daqueles que vão dirigir este país no futuro?

Certamente não é um bom momento para se ser jovem no Brasil. Serviços públicos básicos estão ameaçados pela austeridade do governo e, principalmente, pela PEC dos Gastos, que está provando não ser apenas uma canetada encerrada no obscurantismo da burocracia estatal. Ela terá efeitos práticos na vida de todos os brasileiros, sobretudo os oriundos das camadas sociais mais pobres. Dessa forma, uma educação pública, gratuita e de qualidade parece ser um sonho cada vez mais distante dos nossos olhos, e a pátria tupiniquim se enterra na vala dos países em eterno desenvolvimento.

A nós, futuros profissionais do jornalismo, nos resta fazer o nosso trabalho em prol da manutenção da nossa democracia, conquistada a tanto suor e sangue: garantir o direito ao acesso à informação para todos os brasileiros. Começamos agora, apenas como um jornal experimental da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, mas o caminho ainda é longo e cheio de desafios.

Por Naum Carlos

One Reply to “Editorial”

  1. Acilino Madeira disse:

    A desesperança é que mais dói. Isto diz tudo é resume as tuas colocações. A árdua tarefa de ser jovem num país com pacto social quebrado pela ausência de um sentido viável de coletividade. Parabéns pelo texto grande Naum Gilo.

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