Crônica de um universitário

Opinião

Despertador. Meu corpo demora alguns segundos para reagir. Estendo a minha mão até alcançar o celular. Ainda não sei se haverá aula. Colegas manifestam a mesma dúvida no grupo da turma no WhatsApp. Com o aparelho ainda na mão começo a me afeiçoar à possibilidade de uma manhã toda livre para descansar da noite anterior: a insônia provocada pela ansiedade me permitira dormir apenas um pouco depois das três da manhã.

Quando já estou quase sonhando novamente o celular vibra. Vejo o print de uma mensagem de email do professor avisando que, apesar da greve dos terceirizados e do apoio do corpo docente ao movimento, ele não poderia adiar a prova. “Meu deus, tem prova! ”, grita uma voz na minha cabeça. Num salto, levanto da cama e vou tomar banho. Antes de sair pego a apostila que, por sorte, imprimira há alguns dias para estudar com antecedência para aquela avaliação. Agora é torcer para que o conteúdo fixe na minha mente durante o percurso até a universidade.

O ponto está mais cheio que o normal. Parece que a frota de coletivos foi reduzida em decorrência da greve dos caminhoneiros, que impediu o diesel de chegar às empresas de transporte. Foram vinte minutos a mais de espera até que eu consiguisse subir no ônibus extraordinariamente lotado. Mal passo a catraca e me acomodo no primeiro espaço que julgo ser o suficiente para o meu corpo. Tiro a apostila da mochila e continuo a leitura que começara ainda na parada.

Depois de uma hora chego na parada mais próximo do local da prova. O cansaço, além de físico, já ataca também o meu juízo e são nem nove horas ainda. O professor entende o atraso e permite que eu me sente para fazer a prova, com a qual gasto todo o resto da manhã.

Saio mais leve, com a sensação de dever cumprido. Não estava tão difícil e acredito conseguir tirar a nota suficiente para passar na disciplina. Corro para o RU e, depois de meia hora na fila do refeitório, engulo a comida carente de sabor e o refresco que parece de goiaba, tem sabor de manga, mas é de maçã. A quantidade absurda de açúcar contida na bebida causa um pouco de enjoo após a refeição. No entanto, sigo firme até chegar a tempo no estágio. A bolsa que eu ganho lá é o bastante para pagar algumas regalias que adquiri pela internet há alguns meses, além das contas do dia a dia, como o plano de telefonia e as cervejocas que tomo com o pessoal nos finais de semana (ninguém é de ferro, né?). Só que nunca sobra grana no final do mês e não consigo economizar para uma boa viagem de férias com a qual sonho há tanto tempo.

Depois de uma tarde inteira em frente ao computador trabalhando, o cansaço mental me impede de pensar em qualquer coisa que não seja a minha cama. Mas dormir cedo não é uma opção esta noite. Preciso preparar um seminário para o dia seguinte e enfrento mais uma jornada de algumas horas no notebook até concluir a missão.

São duas horas da manhã e não sou capaz de exigir mais nada do meu corpo e da minha mente. Repouso a cabeça sobre o travesseiro e me pergunto se um dia eu terei a sorte de uma vida mais tranquila. A universidade é só o começo. Depois eu devo enfrentar o mundo selvagem do mercado de trabalho. No meio dos meus pensamentos surge a lembrança dos confortos que tinha antes de ingressar no curso superior e sinto saudades.

De repente o medo ocupa o lugar da nostalgia. Meu coração acelera um pouco e a respiração fica mais pesada. Tento escapar da bad com alguma série do Netflix e pego no sono antes mesmo do fim do primeiro episódio e mais uma vez o despertador.

Por Naum Carlos

 

 

 

 

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