A greve nas estradas

Editorial

Não há quem não saiba o que está acontecendo. Até o mais isolado dos indivíduos deve estar sentindo os efeitos da greve dos caminhoneiros. Há pontos de bloqueio em rodovias de todo o país e itens básicos para o dia a dia não estão chegando para a população: combustíveis, alimentos, insumos para o setor produtivo e mercadorias de diversos setores do comércio já podem ser considerados artigos de luxo em várias regiões do Brasil. Na UnB, vários alunos estão tendo as aulas suspensas até que a situação seja resolvida. A fila de carros para abastecer no postinho chegou até à Colina na tarde de 29 de maio.

A paralisação desmascara os graves problemas que temos na infraestrutura. Como uma única categoria detém tanto poder sobre a vida de toda a sociedade? O erro, claro, é na escolha de investir quase que unicamente no transporte rodoviário, que é até mais barato e produz mais capital político para os governantes, mas gera mais custos a longo prazo.

São mais de 500 anos de história para descobrirmos que quem manda na p* toda são os caminhoneiros. De suas boleias eles podem fazer desaparecer a gasolina dos postos, as frutas e verduras dos hortifrútis, os produtos das gôndolas dos mercados e até os coletivos que levam a grande maioria dos brasileiros para o trabalho.  

No entanto, apesar de todo o ônus social gerado pela paralisação, a população se identificou com a causa dos grevistas. Quem encara os preços dos combustíveis nos postos sabe que foram sucessivos os aumentos nos últimos meses, e o problema é que essas altas não ficam somente naqueles estabelecimentos: elas refletem por todo o setor produtivo e causa a subida geral dos preços no mercado.

É uma situação grave e o governo demonstrou um show de incompetência para resolvê-lo: cantou vitória antes da hora e boa parte dos caminhoneiros não se sentiram contemplados pelo acordo feito com algumas lideranças da categoria. O resultado é o prolongamento do movimento que simplesmente parou o Brasil.

Quem conhece bem como as coisas funcionam poderia prever o fim dessa epopeia antes mesmo de qualquer decisão das autoridades sobre a greve: quem vai pagar a conta somos nós, os contribuintes, que já arcamos com os altos custos de um estado caro e ineficiente e que exige uma das maiores cargas tributárias entre os países emergentes. Enquanto isso, grandes obras de infraestrutura estão abandonadas pelo país, como as ferrovias Transnordestina e a Norte-Sul. Protelamos, mais uma vez, as verdadeiras soluções para os gargalos do setor produtivo.

Já na universidade, as produções científicas também ficam prejudicadas. Desde a semana passada, aqueles que conseguem chegar ao campus Darcy Ribeiro podem perceber os corredores mais vazios, bem como os estacionamentos e o Restaurante Universitário (RU). O período poderia significar uma boa oportunidade para os estudantes descansarem um pouco da intensa rotina universitária não fosse a tsunami de provas e trabalhos que a maioria terá que enfrentar ao cabo deste hiato.

Por Naum Carlos

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