Em Brasília, a crônica começou bem representada. As pioneiras foram escritas antes mesmo da capital por Clemente Luz, considerado o primeiro cronista “brasiliense”. Para ele, a cidade era “imenso louva-a-deus traçado no papel, anterior à promessa de presença”. A primeira crônica publicada pós-nascimento de Brasília, em 22 de abril de 1960, foi de Nelson Rodrigues: sobre a inauguração e o sentimento frente à beleza da capital, o autor escreveu A derrota dos cretinos.
A inspiração proporcionada pelo planalto central não parou na década de 60. Para Virgínia Leal, professora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em gêneros literários, isso ocorre devido as particularidades como a arquitetura de Niemeyer e o planejamento de Lúcio Costa. “Grandes escritores, como Clarice Lispector e Nelson Rodrigues já escreveram sobre Brasília por conta dessas características. E, claro, isso se mantém atualmente. A Conceição Freitas [cronista do Correio Braziliense desde o ano 2000], por exemplo, resgata olhar humano sobre a capital da burocracia. A crônica dela é um respiro literário dentro do jornal.”
Conceição Freitas conheceu Brasília à época da construção. O pai, aventureiro que viajava frequentemente pela Rodovia Belém-Brasília, trazia fotos de “um lugar maravilhoso, completamente branco e erguido sob fundo azul ou vermelho”. Apenas após vários anos morando na capital, a jornalista percebeu de onde eram essas imagens e descobriu ser apaixonada por Brasília desde garotinha.
| Gabriela Alcuri |
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“A crônica é um exercício diário que me obriga a não perder o contato fundamental comigo mesma”, conta Conceição Freitas |
Sobre o ofício de cronista, Conceição brinca ao dizer que “às vezes faz crônica, às vezes engana o leitor”. Isso porque, para a autora, o ofício é apaixonante, mas trabalhoso: “Tem dias não inspiradores. Quando isso acontece, eu escrevo da melhor maneira possível, pois tenho de ocupar o espaço, mas não produzo uma crônica, ao menos não como as de Clarice, Machado ou Rubem Braga”.
| Gabriela Alcuri |
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O impulso inicial de criação também é elemento indispensável para a escritora Rosângela Vieira Rocha, vencedora do Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG (1988) e ex-cronista do site da UnB. Para ela, “a boa crônica vem de um gancho e é ele quem puxa a narrativa. A crônica é um gênero espontâneo, livre, divertido e, por isso, tão gostoso de ler e produzir”. Rosângela, que também escreve romances, novelas, contos e literatura infantil, confessa o papel do planalto central na escrita: “Brasília, em si, é cidade inspiradora. Os sentimentos são ampliados e com eles a vontade de expressão”.
| Bete Coutinho |
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Rosângela Vieira Rocha, premiada escritora brasiliense, produz vários gêneros literários, mas confessa gostar muito da crônica. “É divertido ler e produzir, eu adoro!” |
Literatura menor
A crônica é dona de linguagem simples, personagens comuns e enredo de fatos cotidianos, além de ser texto curto normalmente publicado em veículos transitórios. Por isso, o gênero é frequentemente considerado “literatura menor” pela academia. Antonio Candido, crítico e intelectual brasileiro, defende tal ideia, mas acrescenta que ser “menor” não é necessariamente negativo. “Pois assim ela [a crônica] fica perto de nós. (...) Consegue transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um”, diz o autor no ensaio A vida ao rés do chão.
Concorda com isso o poeta e cronista José Carlos Vieira, atual editor do caderno Diversão&Arte do Correio Braziliense. “A crônica é conversa íntima entre escritor e leitor, é quase uma confissão. São poucos os poemas, contos ou romances que conseguem fazer isso”, diz. Para Vieira, todo jornalista ou escritor iniciante deveria escrever crônicas, pois a prática ajuda no desenvolvimento do texto e na construção de estilo de escrita próprio.
| Gabriela Alcuri |
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