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Universidade de Brasília

Cordel e suas raízes no sertão

 

A literatura de cordel é um gênero tipicamente nordestino, mas que se espalhou pelo país com os migrantes. Era uma forma que os antigos tinham de contar os “causos”, histórias curiosas e lendas. “Meu avô reunia toda a gente, desde filhos e netos, até o povo que morava pertinho, pra contar as histórias que o avô do avô dele contava”, diz Agenor Miranda, paraibano que adotou a Capital Federal há 30 anos. Miranda hoje repassa a tradição aos netos, de seis e nove anos, e diz que os pequenos ficam muito curiosos com as histórias contadas e a juventude do avô no sertão. “Eles gostam muito de saber da época dos cangaceiros”, relata Agenor.

 

 

Os cordelistas elaboram uma história e depois a ilustram utilizando a técnica da xilogravura. Neste processo, o artista faz sulcos em placas de madeira com o desenho desejado. Depois, com a ajuda de um rolo, passa tinta, normalmente preta, na placa e a comprime sobre um papel. Em cada desenho diferente, o artista necessita de outra placa de madeira. Tradicionalmente, os papéis são pendurados em varais, mas cada vez é mais comum que sejam encadernados ou distribuídos avulsos.

 

As rimas do cordel podem ser utilizadas pelos repentistas ou cantadores. Acompanhados de violas, os cantadores dão melodia às histórias impressas nos cordéis. Mas as cantorias podem ir além. Os cantadores utilizam situações do dia a dia ou sugestões da plateia como forma de desafio.

Ramilla Rodrigues
Repentistas pedem colaboração do público para compor apresentação

 

A Casa do Cantador, em Ceilândia Sul, é um dos locais onde cordelistas e repentistas, também chamados de cantadores, se reúnem para relembrar essas duas marcas da cultura nordestina. Na capital federal, tanto o cordel quanto o repente são populares entre migrantes nordestinos, concentrados sobretudo em Ceilândia. Nesta cidade, cerca de 70% dos quase 400 mil habitantes possuem origens no nordeste. Entretanto, segundo o repentista Valdenor de Almeida, novos espaços e novos públicos são conquistados. Embora com foco na comunidade nordestina, Almeida conta que o público está diversificado.“Hoje onde a gente vai, sempre encontra mineiros, paulistas, goianos que apreciam o nosso trabalho”, afirma.

 

O professor gaúcho Emanuel Ribeiro é um desses exemplos. Conheceu a literatura de cordel há quatro anos por meio da esposa, a fisioterapeuta cearense Carla Ribeiro. “Conheci vários contos com alto valor histórico pela literatura de cordel. Utilizo-os na escola onde dou aulas e até agora foi muito proveitoso”, diz Ribeiro, que dá aulas de história para o ensino fundamental numa escola pública em Taguatinga.

Ilustração: Valdério da Costa

Hoje já é possível encontrar cordéis lançados em formato de livros. Durante a I Bienal do Livro de Brasília, autores de diversas partes do país conseguiram publicar suas obras por meio da Cesta Básica da Cultura e do Conhecimento, projeto do governo que visa estimular a leitura entre os brasileiros por meio de parcerias com editoras e pelo lançamento de livros mais acessíveis. Mas alguns autores independentes ainda reclamam do difícil acesso às editoras. “A maior dificuldade que os escritores brasilienses têm hoje é de publicar e conseguir um espaço para mostrar seu trabalho”, diz o poeta João Diniz. Ele conta que uma alternativa é publicar suas obras em revistas com outros escritores. O artista Valdenor da Costa diz que os cordeis em livros tem poucas alterações em relação aos tradicionais “O cordel em livro se difere do formato tradicional na sua apresentação estética, porém mantendo o mesmo conteúdo”.

 

Ainda assim, permanece o velho estilo de fazer cordel. Augusto Pereira escreve há trinta anos e considera o cordel um passatempo. Ele não dispensa mata-borrão, lápis e barbante para pendurar o cordel. “Não sou muito dessas ‘modernidades’ de computador, não. Aprendi a fazer assim e pronto”.

Thiago Vilela
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Terça, 15 Maio 2012