Até outubro deste ano, o lixão da estrutural será desativado definitivamente. O anúncio foi feito em maio pelo governador de Brasília. Uma notícia que deveria ser comum, se não se tratasse do segundo maior lixão a céu aberto do mundo, e do maior da América Latina.

Na justificativa, Rollemberg, eleito em 2014, disse que é uma vergonha ter um dos maiores lixões do mundo e que, na triste história do aterro, houve todo tipo de atentado à dignidade humana.

Quarenta anos é o tempo que o solo, as águas e o ar ficarão contaminados após o fechamento do lixão, confirmam os pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília, que identificaram os impactos causados pelo lixão ainda em 2015. Quase ao lado dele está o Parque Nacional de Brasília, que fica na bacia hidrográfica Paranoá, e de onde se pretendia captar água para abastecer o DF.

Não se pensou que esse fechamento acabará deixando cerca de 2 mil desempregados. O governo não decidiu ainda um plano para realocar os trabalhadores para outro espaço, e os catadores temem o desemprego.

O governo chegou a entregar casas há alguns anos, próximo ao lixão da estrutural, mas por não ficar perto do lixão, quase nenhum catador aderiu à moradia, pois não queria perder, logo cedo, “o melhor do lixo”. É o que conta Douglas Silveira, que já trabalhou buscando lixo reciclável no aterro para uma empresa.

Uma das trabalhadoras do Serviço de Limpeza Urbana, que prefere não ser identificada, garante que essa foi sua fonte de renda durante alguns anos, e que com o dinheiro do lixão criou seus três filhos. Hoje um deles é advogado, uma é arquiteta e outra, psicóloga. Já ela hoje trabalha na Usina de Compostagem de Ceilândia, cuidando do Museu do Lixo.

Depois de quase 60 anos de lixão, somente agora foi feito algo para essa forma de destinação do lixo que é incorreta para o meio ambiente, e que parece ser indigna para os que trabalham no aterro.

É importante saber onde termina a preocupação com a dignidade dos trabalhadores e onde começa o pensamento de que, nessas condições, o aterro era a única opção de emprego para muitos. É necessário saber medir os dois lados, e os dois pesos dessa história; entender que existe um impacto ambiental e que essa não é a melhor forma de destinação do lixo, mas também valorizar o trabalho do catador e daqueles que sairão prejudicados nesse enredo.

Não é apenas um lixão que carrega “uma triste história”. Apesar dos impactos e do fechamento, que já se mostrava necessário há um tempo, mais de 2 mil pessoas até outubro ficarão desempregadas.