Diante de novos fatos, que dispensam explanação, registro a infelicidade de publicar este texto agora. As opiniões que vão abaixo se mantêm, mesmo porque foram escritas antes da gravação que compromete o presidente. Apesar delas, registro: Michel Temer tem de renunciar à Presidência da República imediatamente - Victor Lima Gomes (autor)

 

A menos que Luís Inácio Adams, ex-AGU de Dilma, se imaginasse numa competição de retórica – dessas que professores promovem para que seus alunos defendam posições das quais discordam –, pode-se tomar o artigo dele para o Poder 360 no mínimo como um exercício de bom senso. No limite, é um libelo civilizatório.

Adams foi instado a tecer dois elogios ao governo Temer, sob a premissa de que mesmo um relógio quebrado acerta duas vezes por dia. Ele cita o apoio maciço do Congresso (como sintoma de virtude, não de vício, como preconizam seus ex-colegas de governo) e a centralidade da agenda proposta, ainda que se discorde de seu mérito.

Em meio a uma polarização embrutecedora entre quem sequer confere legitimidade ao presidente e quem pretende que se governe por medidas cautelares (nunca provisórias), apostar na política é mais que necessário. Assim, este Campus decidiu produzir matérias sobre o assunto, seja falando do movimento estudantil da UnB, seja contando a história de alunos ou ex-alunos da Universidade que trabalham na área.

Nada mais salutar, porém, que o justo confronto de ideias. E elas só devem se digladiar nas páginas de opinião. Limito-me a expressar, para não ouriçar os caçadores da opinião alheia (à esquerda e à direita), que, se o governo não é ótimo, é pelo menos bom.

Os erros desta gestão começaram quando pessoas enroladíssimas na Lava Jato e outras de notória incompetência foram nomeadas para ministro. O que não equivale a dizer que uma citação na Operação (ou “43”, referindo-se ao mesmo fato) devesse ser critério classificatório. Ou que a Esplanada devesse estar infestada de gestores (esse sinal dos tempos) sem um voto no Congresso.

A composição de gênero e raça das pastas foi outro equívoco. Os gestos têm, quando pouco, força simbólica. E não é mais possível pensar num País apartado das justas demandas das minorias. No mais, o Executivo recuperou um respeito institucional pelos demais Poderes que se havia perdido nos últimos anos.

Michel Temer tem forte apoio do Congresso e uma agenda clara. Não fosse isso, seus detratores nem perderiam tempo atacando o governo. Numa democracia, é isso mesmo que se espera das oposições. Ninguém é obrigado a apoiar a reforma da Previdência, a trabalhista ou a PEC do teto dos gastos. Tampouco, ninguém tem de se opor a essas propostas. Um lado e outro da moeda são escolhas políticas, e não há política sem confronto de ideias. Todos querem o bem comum, mas quem se arvora a ter-lhe o monopólio quer algo mais: viver numa ditadura.

No mérito, inclino-me a concordar com a maior parte das propostas deste governo. Na forma, acho que poucos conseguiriam aprová-las em um cenário de terra arrasada como este. Na verdade, nem em épocas de vacas gordas isso foi possível (ou desejado).

É natural que se teçam considerações sobre a legitimidade do voto de que Temer carece. Sim, ele também foi eleito por 54 milhões de pessoas, mas para tocar outro programa, não o que obteve 3 milhões de votos a menos. O problema desse argumento é que, no presidencialismo, ao contrário do parlamentarismo, governos não são eleitos para levar a cabo programas. Sem que a eleição do presidente seja atrelada à dos congressistas, estes têm tanta legitimidade quanto aquele para tocar sua própria agenda.

O último refúgio do peemedebista é a História: as consequências de sua gestão não miram o próximo pleito. Opor-se a elas não deve se confundir com a caça a pessoas ou motivos. O que há de mais simpático no presidente é justamente sua recusa em condescender com a interdição de espaços, físicos ou mentais, por grupos que se pretendem donos da Verdade. Às vezes esta assume a forma de pureza ideológica, às vezes é só a ilegalidade travestida de moralismo. Nos estreitos limites a que o coagem, o presidente ainda consegue se mexer. Isso é louvável.