Durante uma discussão sobre o ambiente universitário na aula de Pensamento LGBT Brasileiro, o professor perguntou se nos sentimos seguros dentro da UnB. Levando em conta que os estudantes presentes na sala de aula eram, em sua maioria, integrantes de minorias, sendo quase todos parte da comunidade LGBT, a questão era pertinente e acabou dividindo as opiniões da turma.

No caso das mulheres, algumas disseram que se sentiam mais seguras dentro da universidade que em outros espaços, levando em conta que o debate de gênero costuma estar mais presente que na sociedade em geral. Para outras, no entanto, casos como o feminicídio de Louise Ribeiro ou os assédios constantes por parte de professores e colegas demonstram o quanto o ambiente universitário pode ser extremamente hostil e perigoso para as mulheres.

Quando se é mulher, é normal não se sentir adequada ou protegida em diversos lugares, tendo sua liberdade cerceada em diversos momentos. Ocupar espaços públicos enquanto parte de uma minoria (seja ela racial, de classe, gênero ou orientação sexual) é muitas vezes um desafio, e com a universidade não é diferente. Mesmo sendo encarada como um ambiente diferente dos outros, onde o combate às opressões é pautado com frequência e os preconceitos buscam ser desconstruídos, a Universidade de Brasília ainda está inserida na sociedade misógina e patriarcal.  

O feminicídio de Louise Ribeiro, ocorrido em março de 2016, foi, para muitas de nós, o acontecimento que estourou definitivamente essa bolha ilusória de que a UnB seria um ambiente mais protegido para as mulheres. Saber que um colega de classe poderia com tanta facilidade matar uma de nós nas dependências da própria universidade só fez aumentar nosso medo e nossa angústia dentro desse ambiente.  

Nós sabemos que ser mulher na UnB ou em qualquer outro local público é viver com medo, é andar por ruas escuras à noite com a chave de carro na mão, é evitar subir a pé até a L2 após o pôr do sol, é não pegar matérias no período noturno para não correr o risco de se expor aos inúmeros perigos que o campus mal iluminado pode nos proporcionar. Ser mulher é não ter a liberdade de ir e vir de modo despreocupado, mesmo em um ambiente supostamente mais libertário como a universidade.  

Uma pesquisa encomendada pelo Instituto Avon ao Data Popular, que ouviu 1.823 universitários brasileiros, sendo 60% deles mulheres, mostrou que 67% das entrevistadas já sofreram algum tipo de violência (sexual, psicológica ou física) no ambiente universitário. A maior parte desses casos de assédio ou violências não chega a ser reportada e, mesmo quando eles são levados às instâncias superiores da instituição, nem sempre acarretam em consequências para os abusadores.

Os números demonstram, então, o quanto a universidade pode ser um local perigoso para as mulheres. Muitas vezes dentro da própria sala de aula temos que conviver com piadas e comentários machistas e com o assédio de colegas e de professores que se aproveitam do status superior para nos intimidar. Há também casos constantes de estupros e violências físicas, além de ameaças, cometidos por estudantes ou funcionários dentro do próprio campus ou, como no caso de Louise, até feminicídios.

É importante, portanto, lutar para que a universidade seja um ambiente onde o debate sobre gênero e violências contra a mulher seja constante e obrigatório, tanto dentro quanto fora das salas de aula. Para além do debate, é necessário que medidas institucionais sejam tomadas em caso de denúncias. Para isso, é importante a criação de órgãos específicos que possam atuar no combate às opressões que ocorrem dentro do próprio ambiente universitário e que ajam de modo a proporcionar amparo às vítimas.

Devemos, então, fortalecer a coletividade entre mulheres para que possamos pressionar a instituição a apoiar e financiar iniciativas como a Diretoria da Diversidade e o Centro de Convivência de Mulheres da UnB. Através dessas medidas, será possível fazer com que as mulheres se sintam um pouco mais amparadas dentro de um ambiente que deve ser plural e democrático como a Universidade.