Educação
Sexo dentro de Campus é motivado por pouca maturidade e consumo alcoólico, diz especialista

Apesar da janela e da proximidade com outros estudantes, as salas de estudo privativas da biblioteca foram utilizadas para prática inapropriada

Para sexólogo, noção de censura diminui num ambiente onde se prega liberdade

Seja no banheiro, nos arbustos ou atrás de prédio, é crime. O risco de expulsão ou, em caso mais extremo, de ir preso não impede jovens de transarem dentro dos campi universitários. A faixa etária que compreende a maioria dos estudantes — segundo o anuário estatístico da UnB de 2017, 70% dos alunos regulares dos cursos de graduação têm entre 19 e 24 anos — marca a transição da adolescência à adultidade. A pouca maturidade associada, por diversas vezes, ao álcool implica em falta de auto-censura, que pode pôr em risco as saúdes física e psicológica do envolvido.

Para o especialista em sexualidade humana, Alexandre Marques, graduado em psicologia pelo UniCeub (Centro Universitário de Brasília), jovens universitários são motivados pela ideia de liberdade que existe dentro do ambiente acadêmico. “Existe um senso de liberdade em contextos universitários que, juntamente com os hormônios de um despertar sexual relativamente recente, leva os jovens a tomar atitudes inconsequentes”, observa o psicólogo, ao considerar o sexo como, além da busca pelo prazer, uma tentativa de transgressão por parte de alunos. “Estão brigando com o status quo, em busca de cultura de maior liberdade”, analisa.

Um estudante de 23 anos que preferiu não identificar nome ou curso, conta já ter feito sexo em três ocasiões dentro da área pública da UnB — levando em conta que o campus compreende a CEU (Casa do Estudante Universitário) e a Colina, alojamentos onde, naturalmente, é permitida a prática sexual. A sala de estudos da BCE (Biblioteca Central da UnB), por duas vezes, e atrás do prédio BSA Norte foram os locais escolhidos pelo aluno. Ele diz se arrepender de ter transado na biblioteca: “É um lugar completamente inapropriado. As pessoas podiam estar estudando, mas eu estava ocupando para outra coisa”. A sala privativa da BCE conta com apenas uma pequena janela na porta que não pode ser tapada, como instrui placa afixada na parede. Antes, era necessário que dois estudantes reservassem o local. Hoje, é exigida a presença de três deles.

Foto: Caroline Zampiron

O local já foi utilizado para sexo entre alunos da UnB após festa no campus.

Atrás do BSA Norte, por outro lado, não pesa à consciência do jovem não identificado. “Foi próximo a um happy hour em que fui. Estava bêbado. Não iria atrapalhar em nada, porque era vazio. Não corria risco de ser flagrado, então não me arrependo”, conta. Chamados Happy Hours, as festas que ocorrem na UnB levam muitos jovens, incentivados pela bebida alcoólica, a transar dentro do campus. Quando a prática é estimulada pelo consumo alcoólico, a coisa pode ser pior. O risco do não uso de preservativo e da concessão impensada aumentam com a cognição alterada. Para o especialista, “sem a censura, já que o álcool vai para o sistema nervoso central aumentando o sentimento de euforia e de liberdade, o sexo fica mais fácil”.

“Acho pouco provável que o par alcoolizado esteja atento ao uso de preservativo. A pessoa pode saber que está fazendo algo agradável, mas sem ter noção do que está acontecendo verdadeiramente. Muita vezes, não tem a condição de perceber precisamente a intensidade, o prazer do ato. Muitas vezes nem há afetividade”, explica ele, que também leva em conta a possibilidade de modismo, ou seja, de transar no campus porque outras pessoas também transam.

Em nota, a Secretaria de Comunicação da UnB afirma avaliar caso a caso eventuais práticas promovidas dentro do campus. Confira o comunicado na íntegra.

“As medidas precisam ser avaliadas em cada caso, uma vez que as providências dependem do enquadramento legal dado ao fato. Uma situação de sexo pode configurar, em tese, crime ou contravenção de cunho sexual, conforme previsto no Código Penal ou na Lei de Contravenções Penais. Além disso, internamente, a Administração também pode apurar o ocorrido por meio de um processo administrativo. A punição pode ser mais severa (a depende de onde é feita a prática). Isso porque, sendo a UnB uma fundação pública, pode haver a incidência de um agravante de crime praticado contra a administração pública, para além da prática sexual imprópria.”